Obrigada Lucas!

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O depressivo, ele sempre acha que está sozinho, pudera, nessas horas muita gente some, porque sabe, demora a gente entender e os outros também, que não é preguiça, nem vitimização, nem dupla personalidade, nem maldade, se trata de uma doença e hoje, depois de me ver livre de uma depressão, eu vejo como eu era doente.

Eu trago um atraso, pela história da minha geração e pela história da minha vida também e por isso sempre tive uma cobrança em ser duas vezes melhor, mas com a depressão, eu deveria ser 4 e na maioria das vezes eu não era nada, ou abaixo do nada. Eu achava que não deveria existir e eu tentei muitas vezes o feito.

Nesses momentos, nesses surtos psicológicos, nesses traumas, foi que algumas pessoas apareceram na minha vida, sem que eu pedisse, sem eu quisesse, hoje eu devo real agradecimento e amor por tudo o que elas fizeram por mim.

Quando eu decidi fazer um curso de games no Senac, eu estava na minha época mais anarquista, eu enxergava a tecnologia como uma mudança política-social, mas num cenário depressivo você falar de cyborgs, anarquismo, novos meios, auto-gestão, você além de preguiçoso é maluco.

O curso no Senac foi ruim tecnicamente falando, não era nada do que eu esperava, não tinha essa visão vanguardista que eu queria lá em 2006, porém, eu conheci o Lucas nesse curso e ele era a sintetização de uma auto-gestão dedicada, ele tinha o que faltava no meu anarquismo rebelde, ele tinha o amor.

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Nesse período, eu justificava minha falta de aceitação em possuir uma depressão e falta de recordação de partes do meu passado, numa auto-destruição fantasiada de rebeldia política, porém, eu não tinha estrutura para conviver com pessoas, eu não queria sair de casa para ir pro Senac, eu só queria que tudo isso acabasse e era isso que eu tentava com louvor, porém frustradamente, e parte dessa frustração eu também devo ao Lucas.

O Lucas parece que sabia quando eu estava a ponto de chegar em casa e realizar mais uma tentativa do “não existir”, mas ele era estrategista, sabia que a Luiza fugia de palavras de conforto e….decidia me irritar pelas redes sociais de uma forma que ficava com tanta raiva que ia dormir puta da vida, no dia seguinte ele me recebia com abraços e gargalhadas, ele sabia do feito, ou melhor, do não feito.

Em estágios críticos dessa depressão, eu olhava muito pra uma direção que não existia, meu olhar era vago, eu não comia, eu não tomava banho, por algumas vezes eu usei o ombro ossudo do Lucas para apoiar minha cabeça também ossuda, um dia ele soltou um “ai” e eu perguntei se estava doendo e ele me disse que doía muito, mas o quanto eu precisasse ficar ali eu podia ficar, porque ele sabia que a minha dor era maior (Apesar dele “não entender direito dessas coisas e porque eu fico assim, a vida é maravilhosa”).

Eu também tinha uma alergia muito feia que aumentava com a tristeza, e tinha uma colega de curso que instigava alguns outros colegas e a caçoar disso, o Lucas com pena, um dia me deu um potinho bem fedido, ele provavelmente misturou todos os cremes da Selma, creme de barbear e…comida, ele me deu e disse que eu podia passar aquilo que ia sarar, toda vez que a alergia diminuía, o Lucas ficava feliz acreditando que ela estava sendo liberada por sua incrível invenção.

O Lucas também me levava pedaços de comida escondido, as vezes algo gostoso que a dona Selma fazia, porque eu estava muito magra e não me alimentava.

O Lucas também dizia que eu era uma artista, e eu dizia que ele só falava bobagens, então eu paguei minha língua mais uma vez. Quando comecei nas artes, o Lucas ficou muito feliz, tudo o que eu fazia era “incrível” e eu tinha acabado de começar….

Mais uma vez, o Lucas acertou….ano passado estive na Colombia lidando com mulheres violadas pelas Farcs, exercito e pela sociedade, meses atrás eu havia tido um surto de depressão, talvez o mais forte que tive durante todo o processo de tratamento, minha família e meu namorado acreditavam que seria melhor eu não ir.

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Fui pra Colombia medicada e lá perdi meu remédio e eu tive que lidar diretamente com um trauma, numa língua estrangeira e em um país onde fui ameaçada de morte pelo trabalho que estava realizando sem nenhum suporte e sem ninguém próximo o bastante pra me dizer “Olha, está tudo bem, eu estou aqui”. Eu não consegui realizar tudo como gostaria de realizar, eu passei muita vergonha, eu falei muita besteira e principalmente, toda vez que conversava com alguma mulher dentro da minha pesquisa de campo, eu vomitava no banheiro mais próximo. Mais uma vez, ” eu não tinha estrutura nenhuma, eu não estava pronta”. Nos meus últimos dias na Colombia, ondeeu fiquei cega em alguns momentos justamente do olho que fotografo, por estresse, eu vi que nada possuía. Eu estava feia, muito magra, eu briguei com muitas pessoas, eu me sentia machucada e eu me perguntei se realmente valia a pena ter abraçado uma pesquisa que mexia diretamente na minha ferida porque eu “nunca teria estrutura” essa estrutura que lá atrás eu também não tinha, deitada, eu lembrei das poucas pessoas que me ajudaram quando a depressão apertava, quando flash’s de traumas vinham na minha memória e me desestabilizavam, e Lucas você esteve presente, eu nunca me esqueci de absolutamente nada, você me ensinou que nunca estaríamos prontos, justamente porque a tecnologia, sempre quando a alcançamos, ela está na nossa frente e nossa estrutura se baseia em como queremos ser, como na construção de um jogo, começamos ali, num bloco de notas em branco, sem ter estrutura e assim podemos fazer o melhorque possa existir com o que sonhamos ser e talvez eu esteja viva hoje para repetir essas palavras, por todos esses pequenos grandes gestos seu, por todos esses pequenos números, talvez porque você disse que toda essa história ruim que foi minha vida, poderia se tornar algo grande e bom e nesse momento eu soube que todo o desgaste que meu trabalho me dá (e vai me dar cada vez mais mais) vale a pena, porque é algo que eu não tenho escolha, eu só preciso ir. Com você Luquinha, eu aprendi a ser portal e segurar meus choros e raiva em prol de algo maior, eu aprendi a amar as pessoas que me escrevem pedindo ajuda mas mostrando que elas são fortes, como você fez comigo. Muitas vezes eu te tive como ensinamento, eu lembrei de como ponderava as coisas, de como tinha amor e eu dizia pra mim que nesses momentos, eu devia ser mais “Jockinho”.

Um pouco antes da sua morte, eu tinha pedido seu email pro Diego, eu tinha conseguido um job pra você numa agência grande aqui que você ia adorar, eu sei, eu ia te escrever um dia depois da sua morte e eu me senti muito culpada por não ter escrito antes, mas você falou comigo em sonho e disse que estava tudo bem.

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Sabe Lucas, minha memória é fotográfica, eu tenho um distúrbio também chamado prosopagnosia num nível menor, mas tenho, eu sinto dizer, mas eu não lembro do seu rosto. Minha memória de rostos é como fotos que saem do revelador, mas que não são fixadas, porém, a lembrança da presença, da voz e de coisas inexplicáveis como um sentimento diante um sorriso e um abraço seu, se tornam muito mais fortes. Eu fotografo pessoas, mas muitas vezes olho para as fotos e não as reconheço, mas não devo me preocupar porque a fotografia tem sua própria presença, e por isso eu gosto tanto de fotografia, da imagem, desse ritual de existirem histórias muito além das que possamos distinguir, do imaginário do inconsciente.

As imagens são números e códigos, tal como aqueles que você fazia, os códigos são a decodificação da imagem e você sabe isso melhor que eu. A vida e a morte Lucas, também. Nesse momento estou num campo imagético e você no suporte dos códigos por de trás dessa imagem, pra você já foram relevadas todas essas histórias e eu tenho certeza que mais do que nunca, você foi e agora será para sempre parte do que faço, porque eu como artista te levo no meu coração e na minha história e o sentimento que tenho e tudo o que vivi, são a matéria prima do que produzo.

Obrigada Lucas, que mesmo eu mostrando a minhapior face e sendo rude com você, afinal eu não queria que você gostasse de mim simplesmente pela fato de não me achar digna do amor das pessoas, você viu muito além, você viu o melhor de mim.

Obrigada Lulu, Ljock, Lucas Sensual, velhinho, bafo de gatinho.

Eu nunca te disse, mas eu te amo e você foi o irmão que eu não tive.

*A tatuagem é em homanagem ao Lucas, nos fazíamos algumas apostas e uma delas foi que se ele morresse primeiro, eu teria que tatuar LJOCK SENSUAL no meu peito, obviamente eu não farei isso, (desculpa aê Lucas), mas segue uma reprodução dessa tatuagem que eu sempre achei feia, porque parece um esperma pegando fogo. hahahaha

Quem fez a tatuagem foi o Takuma Kitagawa

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