Eu Nunca Soube Me Portar a Mesa

performance luiza prado

gula luiza prado

Hoje referente aos acontecimentos que venho acompanhado, cai na besteira involuntária de me envolver emocionalmente com todos os fatos, com todos os relatos de cada mulher. Toda essa movimentação na internet decorreu de pedófilos que estavam tecendo comentários absurdos sobre uma menina de 12 anos, participante de um programa de TV. Ontem várias mulheres começaram a expor casos de pedofilia que sofreram e saiba, de 10 das minhas amigas, pelo menos 8 passaram por situações semelhantes.

Eu cai na arte de para-quedas, eu fiz games porque eu acreditava em um sistema anarco e de auto-gestão, mas me tornei designer porque precisava de dinheiro para viver no sistema capitalista, a última coisa que eu queria ser era artista, foi involuntário e dolorido esse processo. A arte foi a única válvula de escape que encontrei para curar as minhas experiências. Eu vim de uma família onde as mulheres foram violadas, abusadas, e resgatando ai o grosso cultural no Brasil, o ciclo colonizatório, as indígenas, minha raiz é essa, todo meu lado materno descende de cablocas, de índias, que em sua maioria sofreram abusos e violências. Já o meu primeiro abuso foi dentro de casa, vindo de pessoas que estavam reproduzindo tudo o que vivenciaram, tudo começou muito cedo, eu não sei mensurar a data e nem gosto de tocar nesse assunto em especial, portanto, não farei esforço para falar sobre os detalhes. Aos 13, um abuso de uma pediatra e por fim um estupro que quase me levou a morte aos 18 anos. O estuprador em questão violou muitas outras meninas da minha cidade, além do estupro eu engravidei dele, abortei, escondi de todos por 1 ano e tive que aguentar as ameaças, que deixava claro que nada ia acontecer com ele, porque que era filho de militar…o fim do mesmo se deu em suicídio no shopping da minha cidade. Assim eu cresci com uma série de traumas, surtos, depressão, sendo uma pessoa que eu não queria ser.

performance luiza prado

Meu meio externo foi na periferia, onde eu via mulheres sendo maltratadas a todo momento (seja fora ou dentro da periferia), meu meio externo também foi a roça, onde tudo acontece e lá se faz justiça com as próprias mãos. Quando você esta muito inserido num contexto violento, ela, a violência é normal e eu achava que o problema ali era eu, era ter nascido mulher, e assim sucederam minhas mutilações sexuais, eu odiava o fato de ter nascido mulher.

Quando comecei a fotografar em 2010, eu não sabia o que ocorria dentro de mim, apenas que havia comprado uma câmera e decidi fazer auto-retratos nua, isso parece ser sem sentido, mas foi instintivo. Eu nunca quis publicar essas fotos, publiquei por incentivo do meu namorado ( que foi e é uma pessoa essencial na minha tentativa de reestruturação). Publicando essas fotos na internet naturalmente, fui atraindo outras mulheres, que me mandavam mensagens contando suas histórias, histórias horríveis, elas diziam que aquelas fotos lembravam suas experiências também. Eu não queria que meu trabalho fosse atrelado a isso, era algo pesado demais para alguém sem estrutura, mas nesse momento, eu estava espelhando a minha experiência em outras pessoas e através delas eu fui descobrindo as minhas feridas. Conforme foi passando os anos, eu tentei ser mais responsável pelo trabalho, ler mais em questão, evitar “vomitar” muito os sentimentos e dar um novo sentido a tudo, durante as minhas terapias, conheci técnicas psicologicas e fui tentando empregar a fotografia no meu tratamento, eu me usei de cobaia durante uma terapia de EMDR e psicodrama, o qual sugeri a minha psicóloga usar fotos, porque eu simplesmente não conseguia falar muito sobre o meu passado, muita coisa fugia da memória.

alvo luiza prado

Durante um tratamento psicológico, é como você limpar feridas, e limpar feridas dói, é normal nesse processo surtos, recaídas, mas a minha pior recaída foi ter ódio mortal da minha mãe e por tudo o que vivemos, eu a culpava, mas hoje sei que ela apenas reproduziu tudo o que viveu, e que se tenho essa personalidade hoje de doação intensa e primária no meu trabalho, é graças a ela. Minha mãe também sofreu violação do próprio pai dentro de casa, e ela via o pai violando sua mãe, minha avó. Minha avó foi “doada” aos 14 para o “pai” da minha mãe, meu suposto avô, porque estava grávida, mas a minha mãe não era filha deste “pai”, minha avó amou também, mesmo não tendo a opção de escolha de ficar com o amor da sua vida, e foi entregue para um homem 3 vezes mais velho que ela, extremamente violento e doente, e essa história se repete com a minha bisavó, com minha tataravó, so que quanto mais andar para trás dessa descendência, piores são os casos. É como fossem laços, que vão se repetindo, repetindo, repetindo…e eu tenho uma irmã, e não quero jamais que isso aconteça com ela e com ninguém.

O primeiro teste de reprocessamento fotográfico, foi “A Menina da Máscara de Gás” onde eu reprocessei uma imagem de uma experiência ruim, desde então as minhas fotos foram baseadas nisso e cada vez mais recebi mensagens de mulheres, homens, sejam eles trans, gays, lesbos, heteros, eles me escreviam contando mais casos, eles iam nas exposições que eu participava e me paravam para contar suas experiências e onde enxergavam o meu trabalho naquilo tudo. Notei que meu trabalho era a narração de outras pessoas.

Aquilo que saiu de mim, tem presença própria, não sou eu, é o outro e o outro, sou eu.

Assim fui estudando, criando todos os processos, trabalhando tudo isso melhor, principalmente porque além de estar revivendo minhas histórias constantemente, eu trabalhava com pornografia, fotografava e filmava putas e atrizes pornos e toda subcultura, vive cruamente toda merda social. Em 2013 sofri abuso de policiais quando ia documentar manifestações em São Paulo e isso resgatou uma série de memórias e neste mesmo ano tive o meu mais forte surto, comecei a tomar remédio e no ano seguinte fui convidada a ir para Colombia. O tema da minha residência era “Sexualidade Colonizada”, fui trabalhar com vítimas da guerra civil e violação sexual partindo da colonização na america latina, o problema é que devido aos traumas, minha inteligência lógica é debilitada, eu tenho dificuldade com números e idiomas e tenho bloqueio com todos os idiomas que eu conhecia, mas não sabia que no impacto cultural de ter de falar outra lingua, eu lembraria de uma cerca de outras coisas. Tive problemas no museu, tive problemas com as pessoas que eu estava trabalhando, falei muita besteira, resgatei a Luiza antiga que tinha ódio de ser mulher, eu não tive apoio, eu estava sozinha. Lá eu conheci outras mulheres que vieram até a mim. Meu foco ali era minha pesquisa de campo e cada história, um vomito, meu nível de nervoso não era choro, era vomitar, eu me perguntava a todo momento, porque topei aquilo. Um dos casos que mais me marcou foi de uma menina que foi violada por 13 anos pelo próprio pai, em cárcere privado, ela desaprendeu a falar, a andar, a comer sozinha e estava sendo re-inserida na sociedade através de um tratamento intenso, já os casos mais comuns eram de violação vinda do exército, polícia e da família, também me contaram que a pouco tempo atrás saqueavam mulheres de restaurantes e onibus, para levar para o exército violar “por diversão”..e talvez você não saiba, no Brasil isso também acontece, em vários outros países, nossa sexualidade, um alvo central de estruturação é tido como algo banal e demonizado. Tudo parece bizarro e absurdo demais, mas me doía aqueles olhos, aquelas mulheres agradecendo por serem APENAS escutadas (porque eu não podia fazer nada)…até que fui ameaçada de morte. Fingi por várias vezes que não poderia ir ao museu, cancelei uma performance na fronteira, por medo, ali eu vi o quão fraca era, eu perdi quilos, perdi meu antidepressivo e estava vivendo a base de coca…. Disso tudo saiu o Curar-se a Si Mesmo eSexualidade Colonizada.

Eu voltei de Bogotá fingindo que estava tudo bem, mas eu tinha muito ódio, eu não soube me reprocessar e isso deu sequência a mais brigas de família e mais surtos e síndrome do pânico.

As coisas andam, eu não desisto e hoje estou bem melhor, mas agora, aqui na Alemanha, estou me deparando com coisas novas, as “mulheres do véu” que carinhosamente eu chamo, estão se achegando a mim, como mudei de território e marco minhas fotos no instagram, algumas me seguem e outras me escrevem e já comecei a ter novas experiências, em um território de informação grotesco e desconhecido.

crux luiza pradi

Eu não sei onde tudo isso pode dar, é desgastante. Eu apenas queria ter tido uma vida normal, queria não ter passado por essas violações, eu queria que minha sexualidade fosse algo normal também. Infelizmente tudo isso aconteceu, e meu trabalho é isso, ele sou eu e não sei separar as coisas. Me chamam de dramática, marginal, pornográfica, satânica, mentirosa, louca, entre outras coisas, falam que devo saber me portar, portar meu trabalho, que ele não é profissional, e eu não desejo que meu trabalho seja “ingenuamente publicitário”, eu desejo que ele tenha vida fora de mim.

Todas essas minhas mulheres foram mágicas, eu enxergo a fotografia e performance como algo ritualesco, primário e eu acredito que a forçaa feminina pode mudar o rumo das coisas.

Eu nunca soube me portar a mesa, eu só sei que tenho fome, muita fome.

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